Nós, filhos da era da mercadoria
lidamos com as coisas na condição
de produtor ou na de consumidor,
e em geral somos irresistivelmente
mais propensos ao processo de consumo.
Bertolt BrechtBrecht gostava de dizer que o teatro devia divertir, sempre. Infelizmente pouca gente associa Brecht a divertimento. Seu nome é mais facilmente ligado a engajamento, compromisso, função social, esquerda, política etc. Aí é que está o problema. Porque divertimento não pode estar junto dessas outras palavras ? Por que divertimento está quase sempre ligado a alienação, fuga da realidade, ilusão ? Divertimento e entretenimento são sinônimos ? Por que o conceito de divertimento foi totalmente absorvido pela indústria do entretenimento e os espectadores condenados a passividade de meros consumidores ?
Os espectadores escolhem os espetáculos que querem assistir. E os artistas ? Escolhem os seus espectadores ? Brecht dizia que tão importante quanto desenvolver a arte no palco era desenvolver a arte dos espectadores. Ele queria se dirigir aos filhos da era da mercadoria. Como gostava de dizer, queria espectadores despertos e não adormecidos, que não deixassem sua consciência junto com os casacos na porta dos teatros. Enfim que os espectadores fossem produtores e não apenas consumidores. Tudo isso pode parecer pesado, difícil, irrealizável. Nós achamos que não. Havana Café foi feito para divertir:
Todas as noites
milhares de casas espalhadas pelos quatro cantos do mundo
abrem suas portas e expõe sua mercadorias: sonhos.
Sonhos sólidos, líquidos, gasosos. Seios, bocas, bebidas, fumaça...
Berlim dos anos 20 teve incontáveis cabarés. Em Havana, nos anos 50, pousavam diariamente os antigos aviões DC - 3 vindo dos Estados Unidos. Homens de smoking desciam e iam direto para os cabarés e cassinos, quando amanhecia pegavam o mesmo avião de volta. E assim continua sendo, da Avenida Princesa Isabel a Praça Mauá. De Moscou a Calcutá. Histórias de segunda mão, ilusões pra sonhar ou viver.
Mas nós, os filhos da era da mercadoria, podemos nos divertir no Havana Café. Podemos nos divertir com as nossas contradições, com as contradições do real, sem fugir dele. Como já disse Marshall Berman, nós artistas estamos mergulhados no mesmo caos que vocês espectadores. Resta-nos saber que tipo de diversão nos convém.
Luiz Fernando Lobo
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